Em "Des images, du temps et des machines – dans les arts et la communication", Edmond Couchot pega de onde Lev Manovich parou em "The Language of New Media", com um olhar voltado para os clássicos "A Imagem-Tempo" e "A Imagem-Movimento", de Gilles Deleuze.

Couchot analisa a crescente automatização das técnicas figurativas e sua influência no olhar humano. Num primeiro momento, sua preocupação com o poder da máquina (como ele deixa claro logo de saída, “a fotografia automatizou a captura da imagem e sua reprodução, o cinema automatizou o registro do movimento, a televisão automatizou sua difusão e a tornou instantânea”) parece algo saído dos textos de Baudrillard ou de Virilio.

Mas Couchot não é anti-máquina: seu objetivo é analisar não somente o impacto da tecnologia (muitos já o fizeram), mas entender sob que condições a imagem é inteligível. A máquina, ainda que deixada sozinha, é capaz de criar imagens ininteligíveis ou de uma inteligibilidade que peça a reflexão que só um humano pode fazer?

Para ele, seguindo mais ou menos o ideário Dada, “a arte não é mais a arte”. Com as novas mídias, a arte teria se derramado para além de suas fronteiras. Hoje não se precisa mais, por exemplo, fazer uma colagem com papel ou material físico: uma colagem digital, feita de pixels e de imagens desencorporadas, pode perfeitamente substituir a antiga técnica dadaísta-surrealista, e dando um passo além: assim como Tristan Tzara e Kurt Schwitters (e depois Picasso e Braque), que deram a materiais antigos (papel e madeira, basicamente) novas funções, os bricoleurs contemporâneos usam as técnicas digitais reinventando-as, gerando obras que a indústria do software jamais imaginou.

Dividido em quatro partes, "Des images, du temps et des machines" analisa os modos de ver desde a Idade Média e seu recurso ao ícone como linguagem fundamental em um mundo “assombrado por demônios”, para usarmos a expressão de Carl Sagan, e regido pela fé e pelo culto à imagem para edificação e também para aprendizado, num mundo predominantemente analfabeto em termos de linguagem escrita, até o que Couchot chama de “tempo ucrônico”, ou seja, o tempo não-linear, o tempo fora do tempo, onde ocorrem os processos de simulação, e novos dispositivos e signos são criados para dar conta dessa nova realidade, virtual ou a real ressignificada.

Couchot fecha o livro fazendo uma contraposição entre o tempo ucrônico e o chamado “tempo da história” dos historiadores, apontando para uma “desarticulação” não só entre esses tempos como também entre dispositivos antigos e novos, e defendendo a frase emblemática de Stelarc, que já disse “as tecnologias numéricas tornarão o corpo obsoleto”. Na esteira de pensadores considerados loucos, como Hans Moravec e Ray Kurzweil, que defendem a transferência da mente para fora do corpo e para dentro de computadores e dispositivos digitais, Couchot não é necessariamente partidário dessa experiência radical, ao menos não literalmente – mas coloca a visão que ainda temos do tempo, essa visão arbitrária e assombrada por relógios, em xeque, quase xeque-mate.

A oscilação entre duas temporalidades antagônicas e irreconciliáveis, para ele, precisa ser encarada como algo que está no mundo e não desaparecerá. O homem deve, portanto, entender a conviver com essa nova realidade, criar uma nova Weltanschaaung que lhe permita viver nesse mundo novo, admirável ou não. Para Couchot, uma vez reinventado o tempo, tudo está por reinventar.