A Intempol pertence, segundo você, a alguma classificação específica dentro da ficção científica?

Octavio Aragão: Sem dúvida, numa classificação genérica, a série pode ser considerada "uchronia", ou seja, aquele tipo de ficção que lida com variantes temporais, sejam do tipo "viagens no tempo" (Wells, Anderson, Silverberg), "histórias alternativas" (Dick, Moorcock, Turtledove) ou "tempestade temporal" (Dickson, Kurland). Na verdade, a série pode ser inserida nas três subcategorias, pois diversos contos bordejam, flertam ou assumem uma ou mais dessas vertentes. Por outro lado, algumas histórias - como, por exemplo, "A Macabra Morte" de McMurdock, de Carlos Orsi - poderiam ser classificadas como New Weird.

O que é um shared universe? A Intempol se encaixa nos princípios de um shared universe?

OA: Shared universe é um universo ficcional compartilhado por diversos autores, geralmente obedecendo a um livro de regras claro, uma Bíblia. Cada história poderia ser lida de maneira independente ou como parte de um todo mais abrangente, mais complexo. A Intempol nasce como um shared universe, mas está longe da rigidez dos antecessores anglo-saxões no momento em que, apesar de obedecer a uma Bíblia, abre mão da coesão absoluta em prol de idéias instigantes. Ou seja, por tratar de viagens no tempo e alteração de realidades, estabeleceu-se que não haveria "verdades absolutas", com um conto podendo desmentir a outros, estabelecendo "novas verdades" a cada página. Com isso, ao contrário da ordem européia, a Intempol aproxima-se da desordem latino-americana, com diversas verdades coexistindo de maneira harmônica ou não. No meu entender, essa é a riqueza do conceito. Um escritor recém-chegado pode escolher seguir os anteriores ou desmentir tudo, começando do zero. Um bom exemplo é que autores diferentes optam por uma das várias origens da Intempol, sem que estejam incorrendo em erro ou inverdade. Eu, por exemplo, tenho a "minha" Intempol, que certamente difere das dos outros. Há infinitas Intempol, e em conseqüência, infinitas histórias.

A Intempol tem sido defendida por vários escritores e fãs como uma renovação da ficção científica brasileira, mas o seu projeto sofreu vários ataques de gente ligada ao meio que a consideram pulp num sentido aparentemente depreciativo. Como explicar isso?

OA: É pulp? É. Mas não só. Há espaço para todo tipo de história, das mais introspectivas e filosóficas, até o escracho total, ao besteirol. Só não há espaço para histórias óbvias, previsíveis ou insalubres. As acusações de que a Intempol seria uma "porcaria" têm mais a ver com uma certa intolerância à linguagem, ao despudor, que alguns consideram como fator diluidor de um suposto dever da FC, enquanto gênero, em ascender a um patamar de alta literatura. Essa preocupação, parece-me, nunca assombrou a luminares do gênero como Asimov, Dick, GIbson e Robert Charles Wilson, apesar de ser perceptível em Wells, Vonnegut, Simmons e Zindell. Felizmente, o plantel de autores da Intempol conta com pessoas como eu, que se identificam com o primeiro escalão, e com autores de ambições maiores, como Fábio Fernandes e Lúcio Manfredi.
Não tenho como explicar essa propalada má-vontade, já que o binômio "popularização - sofisticação" sempre foi uma prerrogativa do gênero. Negar as histórias de peso literário que a série já apresentou, como “A Revanche da Ampulheta”, “Saviana” ou “Abismos do Tempo”, entre várias outras que, inclusive, foram premiadas por instituições presididas por essas mesmas pessoas que hoje criticam, é fechar os olhos para o óbvio. Ficção-científica, como rock'n'roll e as histórias em quadrinhos, três coisas que adoro e professo, são cultura de massa, subproduto da Revolução Industrial, e como tal têm uma pluralidade, uma despretensão que reputo extremamente salutar. Recomendaria aos críticos da Intempol uma massagem, um drinque e, talvez, uma noitada. Relaxar, às vezes, ajuda.

Em algum momento você se sentiu prejudicado por ter criado o Projeto?

OA: Se tive aborrecimentos? Sim, tive. Lidar com tantas personalidades diferentes é muito complicado, e fiquei mesmo muito chateado quando o game não decolou por motivos financeiros. Foi um bom tempo investido, sem falar nos roteiros, nas reuniões etc. Perder o site foi outro soco no estômago, mas os momentos de vitória são tão legais, tão revigorantes, que acaba compensando. Nada se comparou a ver “The Long Yesterday”, a primeira HQ impressa do Projeto Intempol, concorrendo ao prêmio HQMix e, logo de cara, catapultando as carreiras de Osmarco Valladão e Manoel Magalhães. Foi uma honra e um prazer ter sido parte desse processo. Emplacar o conto “Para Tudo se Acabar na Quarta-Feira” em Portugal, lendo as críticas positivas que recebi, também foi um ponto alto. Ou seja, eu poderia ter cuidado de minha carreira em lugar de ficar correndo atrás de publicar contos de outras pessoas? Sim, poderia. Mas eu devo muito à Intempol. Seria injusto criticar esses dez anos.

Em que isso interferiu na divulgação ou apreciação da Intempol por parte dos fãs?

OA: O grande empecilho foi financeiro. Quando o livro saiu, eu tinha dinheiro e, um ano depois, estava zerado. Todo mundo sabe que um empreendimento precisa de um tempo para dar frutos e eu não tinha mais de onde tirar, pois os esforços na captação de recursos minguaram. No início, havia um produtor cultural trabalhando comigo, que sumiu logo depois do livro lançado, quando as coisas pareciam que iam decolar. Correr atrás do patrocínio, gerenciar o projeto prestando contas ao MinC, cuidar dos roteiros de games, editar o site, preparar o RPG, tudo isso foi muito pesado e acabei não conseguindo fazer o todo que pretendia. Sem dinheiro, não há distribuição, divulgação e conhecimento. Mas nem posso falar mal, pois divulgação a gente teve sim. Teve partida de RPG televisionada, teve lançamento do livro na Casa da Matriz, teve matérias em jornais, revistas, o diabo. Tanto é que hoje, tem gente que conheceu a produção da FCB por intermédio da Intempol e acabei sendo conhecido por alguns editores por conta de “Eu Matei Paolo Rossi”... Aliás, por um bom tempo achei que seria conhecido como "O Homem que Matou Paolo Rossi". Ainda bem que isso já mudou...

Você considera que conseguiu atingir o público? Aliás, você tinha um publico-alvo definido para a Intempol?

OA: Nunca tive público-alvo para o Projeto. Meu objetivo era unificar públicos que considerava borderline, mas que nunca se tocavam, como os de FC literária, de HQs, RPG e games. Jamais compreendi essa segmentação. Achava impossível alguém curtir RPG e não ler FC, gostar de HQs e não jogar games etc. Vi na Intempol uma possibilidade que, hoje, percebo em iniciativas como o TaikoDom, que está mirando num objetivo semelhante. Acho isso sensacional. E prova que é possível.

A Intempol ainda é vista por você como um projeto multimídia?

OA: Claro. Não creio que tenha mais vontade de escrever contos para série depois e “Reis de Todos os Mundos Possíveis” e “Para Tudo se Acabar na Quarta-Feira”, mas vejo inúmeros possibilidades em formato de HQ e de animação.

Escrever ficção científica no Brasil é difícil?

OA: Eu não acho. Publicar, porém... Mas até aí, publicar qualquer coisa é difícil no Brasil.

O que mais lhe deu prazer e o que mais o incomodou no Projeto e sua repercussão?

OA: O que mais me agradou foi ter a chance de ver no prelo os primeiros trabalhos de gente talentosa com Osmarco e Manoel, Jorge Nunes, Paulo Elache, Hidemberg Frota, sem falar no pessoal novo que mostrou talento no site da Intempol, com Alexandre Mandarino, Alexandre Lancaster e Ernesto Nakamura, entre diversos outros. Considero isso um golaço e, se puder, farei outra vez. O que me incomodou? Ah, ser esculhambado em sites internacionais por críticos brasileiros me incomodou, sim. Hoje já superei, mas na hora fiquei pensando o que diabos eu tinha feito para perturbar tanto e merecer um ataque covarde daqueles, principalmente porque gastei um bom tempo fazendo contatos internacionais para vender não apenas meu trabalho, mas o dos meus colegas. Depois pensei melhor e vi que a máxima "falem mal, mas falem de mim" caia como uma luva naquela situação. Hoje mudei minha posição: ei, pessoal, podem falar mal, tá bom? Falem bastante! A família, penhorada, agradece.

O que você está planejando para a Intempol nos próximos dez anos? E quais são os próximos projetos de Octavio Aragão?

OA: Para a Intempol a prioridade é a recuperação do material do site, acrescido de novas entrevistas e contos, o que já está acontecendo no site. A versão para HQ de “Para Tudo se Acabar na Quarta-Feira”, uma parceria com o jovem talento capixaba Manoel Ricardo, já está em andamento e pretendo, num futuro próximo, lançar finalmente o RPG em versão para download (se o Fábio Fernandes concordar, claro), seguida da segunda antologia de contos, que está prontinha. Depois disso, sei lá. Gostaria de lançar antologias reunindo o material mais representativo da série em volumes "de autor". Um para o Fábio, um para o Osmarco, um para o Carlos, um para o Jorge... e, claro, um para mim. Se bem que vão me acusar de publicar o Paolo Rossi pela terceira vez. Quanto aos meus projetos, estou escrevendo “A Mão Que Pune”, continuação de meu romance de 2006, “A Mão Que Cria”. Para aqueles que acham que sabem o que vai aparecer ali, eu digo... Olha, está ficando muito diferente do que eu mesmo esperava. Trata-se de um projeto de 300 páginas, dividido em três partes, uma passada no século 19, outra no meio do século 20 e a terceira no século 21. A narrativa será mais convencional que o outro livro, mas preparem-se para uma enxurrada de nomes e muita ação. Alguns dos personagens preferidos dos leitores voltarão, mas outros pesos-pesados darão as caras. Depois pretendo iniciar um romance de hard science fiction, “O Piscar”, com muita física quântica e uma trama nos moldes de Robert Charles Wilson. No que diz respeito ao design, estou envolvido com o projeto de ensino à distância da UFES e capitaneei um evento, a Semana de Design, em Vitória, que foi um sucesso. Creio que a segunda edição do evento vem por aí. Há outras coisas, como artigos acadêmicos e projetos voltados à minha área de estudo, HQs e charges, mas - ei - tenho uma família para cuidar!