Em termos de literatura, essa nomeação é de caráter quase adâmico: imposta quase sempre de cima para baixo, ou seja, das editoras para os autores, sem interferência destes. Estou me referindo à classificação do livro em determinada categoria, ou gênero literário. No Brasil, ao contrário dos Estados Unidos ou da Europa, não se nomeia o gênero na lombada do livro – mas isso não impede que a editora classifique o livro e anuncie essa classificação por intermédio de sua assessoria de imprensa e das estantes das livrarias.
(Isso nem sempre funciona a contento – vide o caso, já antigo, de “Marte”, de Fritz Zorn, um livro contendo as reflexões de seu autor, um homem que estava prestes a morrer de câncer; “Marte”, publicado pela editora Nova Fronteira e classificado apenas como literatura estrangeira, foi encontrado por este que vos digita em diversas livrarias na seção de Ficção Científica, evidentemente por causa de seu título, digamos, espacial, embora a referência de Zorn no título fosse mitológica.)
A ficção científica, aliás, é um dos gêneros mais afetados por esse tipo de equívoco editorial ou livreiro. Livros como “Terroristas do Milênio”, de J.G.Ballard (uma tradução infeliz para “Millennium People”, muito mais sutil) e “Shikasta”, da recém-Nobelizada Doris Lessing, são assumidos como ficção científica por seus autores, mas nem sempre são vendidos como tal; talvez porque eles sejam conhecidos como, digamos, escritores mais polivalentes, que não jogam apenas no campo da FC (o que não é verdade com Ballard, que já cansou de declarar que tudo o que escreve é ficção científica e ponto final, embora a Companhia das Letras insista em ignorar isso, como se fosse uma praga).
E quando isso acontece do lado dos escritores? Foi assim com o Movimento Cyberpunk em 1984, uma revolta imposta pela “classe operária” da ficção científica, ou seja, os próprios autores, como William Gibson e Bruce Sterling. O movimento desta vez foi de baixo para cima, mas rapidamente caiu no gosto da mídia e gerou uma revolução que até hoje ressoa no imaginário popular (“Matrix” que o diga).
De lá para cá, a indefinição pós-moderna de barreiras não fez muito mais que gerar clones de histórias de Gibson e cópias do filme dos irmãos Wachowski. É o que costuma acontecer com todo movimento, dos hippies aos punks, e com os cyberpunks não seria diferente: a cooptação pelo establishment.
Esse tipo de situação às vezes provoca incômodos entre os mais xiitas (no caso dos punks, só não provocou incômodo para Malcolm McLaren, que já criou os Sex Pistols pensando na grana, mas esta é outra história). No entanto, a cada época o que lhe é de direito: se no tempo dos cyberpunks, os anos 1980, ainda existia uma certa ingenuidade do tipo “fight the power”, “rage against the machine” e congêneres, hoje parece que isso deu lugar a uma ironia corrosiva – e não necessariamente saudável ou producente.
Talvez por isso os novos “movimentos” que tenham surgido nos últimos anos não tenham tido lá muita vontade de se considerarem como tais. Surgem novos e talentosos autores, que expandem as barreiras do gênero, e os editores fazem a sua parte: buscam rótulos para categorizá-los segundo a classificação de Dewey ou a classificação bem menos rigorosa e atenta das livrarias. Esta situação viu passar nos últimos 15 anos autores como Neal Stephenson, Charles Stross, Alastair Reynolds, China Miéville, Cory Doctorow, Steph Swainston e muitos, mas muitos outros mesmo.
Vários destes autores deram a volta na revolução cyberpunk promovendo revoltas silenciosas e de-um-autor-só; assim, desde 1992, nasceram diversos movimentos como subgêneros dentro da ficção científica: o pós-cyber, do qual “Snow Crash” é o representante máximo, a New Space Opera, que tem entre seus principais defensores John Scalzi e Alastair Reynolds, e a New Weird Fiction, que, de todos esses movimentos, é o mais organizado. Primeiro, por conta de revistas como a quase centenária revista Weird Tales, que publicou nos bons tempos da pulp fiction contos de autores hoje clássicos, como H. P. Lovecraft e Robert E. Howard (este, criador de Conan, o Bárbaro); segundo, porque seus autores têm trocado idéias nos últimos anos de um jeito e com uma intensidade que não se via desde os tempos do cyberpunk.
O segundo motivo eu tenho em minhas mãos agora: a coletânea "The New Weird", editada por Ann e Jeff VanderMeer. O livro promove uma revolução saudável e adequadamente bizarra: para os editores, o casal Ann e Jeff VanderMeer (ela se tornou recentemente editora da Weird Tales e ele é editor e escritor de primeira – confiram aqui a novela kafkiana “The Situation”, que a Wired disponibilizou de graça), o Movimento New Weird propriamente (se é que houve realmente um movimento) já acabou. O que não quer dizer que seus autores e histórias não estejam cada vez mais fortes.
Paradoxo? Talvez. Mas o paradoxo não é o paradigma do pós-moderno, ou melhor, da modernidade líquida, segundo Bauman? É o que as suculentas 403 páginas do livro demonstram.
O livro “The New Weird” é um verdadeiro estudo de caso: dividido em várias seções, ele analisa os precursores recentes (sem deixar de mencionar seus representantes mais famosos, como Lovecraft e Howard, ou Mervyn Peake, autor da trilogia “Gormenghast”, escrita na década de 1950, que promove uma revolução na fantasia tolkieniana até então vigente) como M. John Harrison, autor de “Viriconium” e dos recentes “Light” e “Nova Swing” (este último ganhador do Arthur C. Clarke Award de 2007), que começou a escrever na década de 1970. Juntamente com Michael Moorcock (este o principal articulador da New Wave britânica de FC dos anos 1960, outro exemplo de revolução midiática criado pelos próprios autores) e Clive Barker, clássico do horror, mas que produziu contos mais estranhos do que assustadores – ou talvez assustadores porque estranhos, no sentido proposto pelo formalista russo Viktor Chklovski, que criou o neologismo ostraniene, ou estranhamento.
Em seguida, somos apresentados aos autores da nova safra, como China Miéville, autor do já clássico “Perdido Street Station” (que, por sua riqueza narrativa e imaginativa daria por si só um ou mais artigos, mas esta também é outra história), Jeffrey Thomas, autor do ótimo “Deadstock”, Jay Lake, K.J. Bishop, a finlandesa Leena Krohn (cujo conto está traduzido do finlandês, mostrando que, ao contrário da paranóica administração Bush, os americanos que escrevem FC não têm o menor preconceito contra quem vem de outras terras), e uma das maiores autoras do gênero no momento, a inglesa Steph Swainston.
Depois, somos brindados com uma seção de Simpósio:, que contém artigos de editores europeus sobre o New Weird e algo que não existia (não como conhecemos hoje) na época de “Neuromancer”, nem nunca foi feito na antologia máxima do movimento, “Mirrorshades”: um resumo de uma lista de discussão onde os autores procuraram, em 2003, definir o que seria esse tal de New Weird. Uma discussão nem sempre totalmente ponderada, mas que também não descamba para uma discussão acirrada. O foco continua fixo ao longo da discussão e, se não sabemos exatamente o que pode ou deve ser considerado New Weird, ao menos saímos dessas páginas entendendo um pouco mais sobre o que não é New Weird (exatamente o que acontece com todos aqueles que tentam fixar limites sobre a ficção científica, esse gênero tão elusivo).
Ao final do volume, uma surpresa: uma round-robin, ou seja, uma história escrita em parceria onde a regra principal é que um autor cria uma premissa e os seguintes vão desenvolvendo da forma mais coerente possível, mas sem noção de como ela deve terminar. A história, que mistura cidades e criaturas bizarras com terrorismo, termina de forma muito brusca, mas a Tachyon Publications, editora do livro, fornece gratuitamente um final alternativo em seu site (mas atenção: não vale ler se você não tiver lido a história toda no livro; você não vai entender nada)
Como dito antes na resenha de "Brasyl", quem não faz leva. Mas aqui o puxão de orelha não é para os autores, e sim para os editores. Já está mais do que na hora de alguém perceber que FC é literatura adulta e de qualidade, e The New Weird é prova mais que suficiente disso.
