Aqui, puxo a brasa para minha sardinha e entro na polêmica defendendo Doris. Primeiro, porque esse tipo de observação demeritória me traz à memória a micro-celeuma (não chegou a virar polêmica) que envolveu os filmes “Central do Brasil” e “A Vida é Bela” na cerimônia do Oscar 1999. Nunca fomos tão brasileiros como na torcida pelo filme de Walter Salles; quando o filme de Roberto Benigni (um ótimo filme, mas “Um Sinal de Esperança”, a adaptação estrelada por Robin Williams para o livro “Jakob, o Mentiroso” é melhor e mais forte) ganhou, e Benigni fez aquela palhaçada (palhaçada não no sentido ofensivo, mas uma atitude de clown mesmo) de subir nas poltronas para ir buscar a estatueta dourada, todo mundo aqui vaiou e achou bobo. No mês seguinte, as principais revistas de cultura do Brasil criticaram a premiação e alegaram que a Academia fizera uma escolha política.

Ora, e desde quando essas premiações não são políticas? Afinal, tudo o que envolve uma eleição tem um viés político. Alguns poucos exemplos: o ganhador do Nobel de 1961, o bósnio Ivo Andric ficou preso pelo governo austríaco durante a I Guerra Mundial junto com sérvios, ao lado dos quais lutou; como ele, Boris Pasternak, ganhador do Nobel de 1958 e autor de Dr. Jivago, também teve problemas com o regime soviético e optou pelo exílio; Alexander Soljenítsin, que ganhou em 1970, não teve a mesma sorte: ficou preso por anos na União Soviética e um de seus livros mais famosos, “O Arquipélago Gulag”, contou essa experiência.

De resto, a relação de laureados alterna premiados políticos com, poderíamos dizer, exclusivamente literários (se é que existe literatura que nunca trate de política, mas essa é outra história). O Nobel premiou tanto nomes conhecidos mundialmente pelo conjunto da obra como Ernest Hemingway, Pearl S. Buck, Thomas Mann, Dario Fo (dramaturgo que na época de sua premiação também foi criticado, muito embora os autores teatrais Luigi Pirandello e Eugene O´Neill também tenham sido premiados muito antes), J.M Coetzee e José Saramago, como escritores que também eram ativistas políticos, como Wole Soyinka, Czeslaw Milosz e Nadine Gordimer.

A questão é (ou deveria ser): o prêmio, ainda que conferido segundo critérios políticos, foi merecido pelo conjunto da obra? A obra de Doris Lessing, que abrange quase 60 anos de carreira e mais de 50 livros, não é pífia.

Segundo, porque Doris Lessing também escreveu ficção científica. Seu livro “Memórias de um Sobrevivente”, escrito em 1971, se passa em um estranho mundo pós-guerra nuclear (uma observação: o livro The Road, de Cormac McCarthy tem uma premissa não muito diferente da de Lessing – mas é interessante observar que, apesar de McCarthy e Lessing não serem escritores juramentados e militantes do gênero ficção científica, escreveram histórias bem dentro de um certo cânone não-escrito do subgênero chamado “pós-holocausto” – road books ao invés de road movies, espécies estranhas de Paris-Texas filmados não por Wim Wenders, mas por David Lynch ou David Cronenberg (ou talvez os dois juntos). Exemplos anteriores aos livros citados são “Damnation Alley”, de Roger Zelazny, e “Um Cântico para Leibowitz”, de Walter M. Miller, Jr.

A cereja no bolo de Doris é a série “Canopus em Argus”, composta por cinco livros. O primeiro deles, “Shikasta”, é o melhor e o mais interessante, apesar da premissa que muitos consideram pseudo-ficção científica. Por que apesar, vocês perguntarão? E eu responderei: porque, apesar de Doris nos mostrar uma Terra que desde a pré-história é campo de batalha mental-físico-ideológico entre os seres de Canopus, de Sírius e o maléfico império Shammat, ela faz com que toda a tecnologia deles soe para nós como esoterismo, a começar pela Zona Seis, o método de transporte favorito desses alienígenas, e que não tem nada a ver com naves espaciais, mas com o método que nos acostumamos a chamar de reencarnação.

O primeiro volume dessa série acompanha a trágica história do emissário Johor, ou George Sherban (sua última encarnação – Lessing dá a entender que ele age na Terra há milênios, e que uma de suas encarnações poderia ter sido Jesus Cristo), que vive nos últimos anos do século vinte – ou o século da destruição, como é conhecido pelos agentes de Canopus. Shikasta ainda é um livro pertinente para os dias de hoje, e nem um pouco datado: escrito tendo como pano de fundo o Terceiro Mundo (em particular a África), Doris mostra a insustentável crise política que se abate contra o Primeiro Mundo e em particular contra os brancos, que percebem (finalmente) que não são maioria no mundo. A cena em que um tribunal composto por jovens de todo o mundo (que lembra profeticamente o Fórum Social Mundial) para julgar simbolicamente a raça branca por seus erros já se tornou clássica.

Mesmo com tudo isso, nem todo mundo ficou satisfeito com o Nobel de Doris. Alguns comentaristas e críticos alegaram razões políticas, porque ela é de esquerda – reflexos anti-esquerda devidos à oposição ao governo Lula? Só podemos especular. Mas, sinceramente, é melhor ler – e muito – Doris Lessing.