AS: Isso é uma questão de ponto de vista, que tem a ver com idéia que eu tenho de FC. Minha idéia de FC baseia-se sobretudo no trabalho do crítico literário Darko Suvin, autor de "Metamorphoses of Science Fiction" (New Haven/London: Yale University Press, 1980). Suvin propõe o conceito de novum, emprestado e adaptado da obra do filósofo alemão Ernst Bloch, autor de "O Princípio da Esperança" (Das Prinzip Hoffnung, I-II, Frankfurt, 1959), para quem as utopias teriam importância capital na história humana. De acordo com Suvin, o novum pode ser qualquer aparelho, engenhoca, técnica, fenômeno, localidade espaço-temporal, agente(s) ou personagem(ns) que venha(m) a introduzir algo novo ou desconhecido no ambiente empírico, tanto do autor quanto do leitor implícito. Noutras palavras, o novum promove uma “descontinuidade” entre a diegese e o ambiente empírico do leitor/espectador implícito, é o elemento que faz soar o alarme - “esta história não se passa exatamente no universo que eu conheço”-, estabelecendo, a partir daí, um modo de recepção/leitura específico da ficção científica (Cf. SUVIN, 1980, p. 64). Mas o autor acrescenta: “o novum é postulado e validado por um método científico pós-cartesiano e pós-baconiano.” Torna-se, portanto, imprescindível “(...) a presença de cognição científica como o signo ou correlativo de um método (jeito, approach, atmosfera, sensibilidade) idêntico àquele de uma moderna filosofia da ciência.” (Cf. SUVIN, 1980, p. 64-5). Resumindo ao máximo o pensamento de Suvin, a ficção científica é um gênero literário que se distingue pela ocorrência de um novum obrigatoriamente validado pela lógica cognitiva. Esse novum é o principal elemento característico da ficção científica, instrumento do efeito de estranhamento, da sensação de descontinuidade entre o universo proposto pela diegese e o universo empírico do autor/diretor e do leitor/espectador implícitos. A visão de Kingsley Amis do que é a FC também me influenciou, embora seja menos complexa que a desenvolvida por Suvin. Segundo Amis, “A ficção científica é uma classe de narrativa em prosa de uma situação que não poderia ocorrer no mundo como o conhecemos, mas sobre a qual estabelecemos uma hipótese baseada em alguma inovação na ciência ou tecnologia, ou na pseudociência ou pseudotecnologia, seja sua origem humana ou terrestre.” Dito isto, considero "Os Cosmonautas" um filme de FC (ou pelo menos mais próximo da FC do que "O Homem do Sputnik") porque o filme, lançado em 1962, apresenta uma experiência inspirada na ciência e na tecnologia de fato diversa de nossa realidade, a saber, astronautas brasileiros conquistando o espaço e fazendo contato com uma alienígena. Por sua vez, creio que "O Homem do Sputnik" nos oferece uma saborosa ficção, mas não ficção científica. Primeiro porque, na época do lançamento do filme (1959), satélites artificiais já eram uma realidade. Isso não inviabiliza automaticamente a associação do filme à ficção científica mas, se levarmos em conta que, tanto na literatura quanto no cinema, o gênero propõe visões especulativas sobre o futuro ou sobre o relacionamento do homem com seus artefatos técnicos, veremos que "O Homem do Sputnik" tem pouco a oferecer nesse sentido. O filme não apresenta exatamente novum algum. De fato, toda a ação se desenvolve em função de um artefato tecnológico - muito embora, no desfecho do filme, fiquemos sabendo que o objeto que caiu no galinheiro de Anastácio não era o verdadeiro Sputnik, mas sim uma rosa dos ventos instalada no telhado de sua casa. Mas os desdobramentos do fato de um suposto satélite artificial ter caído no quintal da casa de um indivíduo restringem-se a uma “corrida ao tesouro”. Embora não considere "O Homem do Sputnik" um filme de FC, acredito que o filme de Carlos Manga, como outras chanchadas, é um mosaico de citações paródicas, inclusive de FC. Creio que a FC tenha servido de combustível para algumas chanchadas, em especial "Os Cosmonautas" (1962, dir.: Victor Lima), "Carnaval em Marte" (1954, dir.: Watson Macedo) e "Malandros em Quarta Dimensão" (1954, dir.: Luiz de Barros). Cumpre lembrar que, antes de FC, esses filmes são notadamente chanchadas, gênero já amplamente reconhecido no cinema brasileiro.
CC: O cinema nacional de FC pode ser um exemplo de antropofagia: uma manifestação que representa uma espécie de cultura transnacional? Sim, pois parece que há arquétipos em comum, como as especulações ambientais retratadas em filmes como "Parada 88: o Limite de Alerta" (1978), de José de Anchieta, e "Abrigo Nuclear" (1981), de Roberto Pires.
AS: Eu concordo com essa observação. Vale a pena notar que filmes como "Parada 88", "Abrigo Nuclear", e mesmo curtas-metragens em super-8, como "Túnel 93º" (1972), de Claudinê Perina Camargo, são representativos do início de uma tomada de consciência em relação ao meio-ambiente, no Brasil e no mundo. Podemos reconhecer em "Abrigo Nuclear" inspiração em arquétipos presentes também em filmes de FC estrangeiros, como "THX-1138", de George Lucas, ou romances como "1984", de George Orwell, ou ainda "Admirável Mundo Novo", de Aldous Huxley. Com "Parada 88" não é diferente. O filme propõe uma distopia futurista do nível de um "Mad Max", filme australiano lançado no ano seguinte. Não há dúvida de que filmes como Parada, Abrigo e Túnel têm “intenções” transnacionais, e nesse sentido inserem o Brasil numa visão mais universalista, porém não ignorante das peculiaridades locais. Aliás, julgo essa vocação universalista um traço da FC em geral. Outro aspecto que percebo é que esses filmes se valem do discurso ambientalista para tecer críticas também à ditadura militar, no que se somam à literatura brasileira de FC do período. Esse movimento é coerente, dado o tipo de modernização promovida pelo regime militar.

Imagem do curta "Outra Meta", realizado em Campinas em 1975, com direção de Claudinê Perina Camargo (C. Perina C.), fotografia e som de Henrique de Oliveira Jr.
CC: Segundo o antropólogo norte-americano Marshall Sahlins "identidade cultural" é uma construção relativa baseada na comparação de similaridades e diferenças. Neste sentido, a o cinema de FC nacional teria uma identidade?
AS: Creio que sim, embora seja uma identidade essencialmente fraturada e capenga. Pode parecer paradoxal, mas acredito que a identidade do cinema de FC nacional repousa justamente no amálgama cultural, no improviso, na contingência e na consciência de uma posição periférica ou subordinada no tabuleiro mundial. Por isso muitos dos filmes brasileiros que tangenciam o universo da FC sejam sobre indivíduos ou minorias sitiadas, enquanto na maioria dos casos se descamba para a paródia rasgada e subserviente. Por algum motivo, o cinema brasileiro se julga incapaz de explorar a FC como se fez e faz nos EUA, Europa, Japão, e até mesmo, em menor escala, na Argentina ou no México. São poucas as exceções. Um filme brasileiro que considero FC bem-sucedida é "O Quinto Poder" (1962), escrito e produzido por Carlos Pedregal e dirigido por Alberto Pieralisi. O filme trata de uma intriga internacional em que agentes estrangeiros infiltrados pretendem dominar o Brasil por meio de mensagens subliminares. Creio que o tema e o tom desse filme demonstram algo da identidade de um cinema brasileiro de FC, na figura de uma nação poderosa adormecida, cerceada por interesses estrangeiros. Em geral, acho que os filmes brasileiros de FC levantam com freqüência a seguinte pergunta: afinal, a que mundo nós brasileiros pertencemos? Ao Ocidente racional, ou ao de uma natureza mítica, corpórea, de uma “sabença” ancestral?

Imagem do curta "Outra Meta", realizado em Campinas em 1975, com direção de Claudinê Perina Camargo (C. Perina C.), fotografia e som de Henrique de Oliveira Jr.
CC: Você recentemente apresentou a nossa produção cinematográfica de FC em um congresso na Austrália. Como foi essa experiência?
AS: Foi maravilhosa, em novembro de 2006 em Melbourne, na XIII Conferência Bienal da Associação de Cinema e História da Austrália e da Nova Zelândia (FHAANZ), organização similar à Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema (SOCINE), no Brasil. Boa parte dos filmes que discuti era completamente desconhecida para os pesquisadores que lá estavam, a maioria da Oceania, Europa e América do Norte. Esses filmes brasileiros despertaram o interesse de acadêmicos de renome na área dos estudos de cinema, como os professores Ian Christie, da University of London, ou Janet Staiger, da University of Texas, dos quais recebi boas orientações de estudo. Além de debatermos especificamente sobre os filmes comentados no meu paper, atentamos para o fato de que uma imensa massa da produção cinematográfica mundial permanece na penumbra ou na mais completa escuridão, daí a importância desses contatos internacionais. Tive outro paper, sobre distopias ecológicas no cinema brasileiro, aceito na 32ª Conferência sobre Literatura e Cinema da Florida State University. Infelizmente não poderei apresentar esse trabalho em fevereiro deste ano, pois como estudante de doutorado e bolsista Capes, tenho dificuldades financeiras em participar de eventos estrangeiros quando o intervalo entre um e outro é muito curto.
