Dos animais humanos e outras coisas desnecessárias: Sistema estelar N273G - Análise preliminar sobre a espécie dominante do terceiro planeta
A filosofia é desnecessária.
Mas os humanos também são.
Porque são desnecessários os sentimentos, as angústias, os prazeres, as felicidades e infelicidades. Só os animais não humanos vivem o estritamente necessário. Eles se reproduzem. Não discutem a relação. Matam e comem uns aos outros segundo a lei da sobrevivência e do mais forte, e, principalmente, sem culpa. Não vestem roupas, como se sabe e, portanto, não precisam comprá-las nem muito menos estar na última moda. Aquecem-se ao sol e não inventam histórias sobre ele — nem sobre as estrelas. Existem. E continuar a existir é sua meta necessária, programada em cada gene ao longo dos milhões de anos em que sua espécie se desenhou. É tudo assim na natureza: necessário e indiferente.
Como os demais animais, cada indivíduo da espécie preferirá o modo mais fácil de obter comida e de se reproduzir. E serão os mais fortes aqueles que obterão mais vantagens, mais comida e mais fêmeas, embora devam, com isso, pagar o preço da demonstração de tal superioridade — o que lhes custará um tanto de arranhões e sangue derramado e talvez a morte do oponente. Mas, pelo jeito, assim a natureza melhora a espécie.
Provavelmente por força da desvantagem na briga pelo existir, em alguns seres uma mutação genética parece ter permitido uma espécie de capacidade criativa e relacional que ao mesmo tempo imitava a natureza e se utilizava dela para criar um ou outro artefato para compensar tal desvantagem. Assim, esses seres foram capazes de fabricar pequenas armas, usar em si a pele dos outros animais — estes muito mais privilegiados pelo aquecimento natural — conseguiram proteger-se melhor em bandos. Essa mesma capacidade de observação os fez perceber que certa distribuição de tarefas supriria melhor suas necessidades de sobrevivência.
Semelhante processo deve ter se dado com os chamados seres humanos. Que, contudo, foram também aperfeiçoando aquela ferramenta da natureza que os permitia constantemente compensar tão medíocre força física diante dela própria, a natureza. De fracos, viraram “os mais fortes”. O problema é que, talvez por uma provável inicial sobra de tempo entre uma e outra exigência (ou melhor: “necessidade”) selvagem (ou “natural” strictu sensu) da sobrevivência (colher, matar, comer, defender-se, reproduzir-se, enfim, “sobreviver”), o mecanismo de observar, imitar e criar objetos continuou a operar em sua natureza de modo, por assim dizer, descontrolado.
O ser humano já teria aprendido a observar os hábitos dos animais e a dominar seu comportamento no intuito de saber caçá-los, encurralá-los e matá-los ou simplesmente assustá-los. Saberia escolher os melhores lugares para se posicionar e defender-se. Saberia relacionar os hábitos dos animais com os ciclos da natureza. E obtinha seguidamente vantagens com tal mecanismo, que operava relacionando todos os dados da experiência. Mesmo inicialmente motivado pela onipotente necessidade de sobrevivência, o central do mecanismo era sua propriedade de relacionar coisas. No entanto, a natureza despreocupou-se de programá-lo para ficar em estado inoperante nas horas vagas (ou de não necessidade de sobrevivência). Na verdade, o mecanismo seguia os passos de todas as criaturas: uma vez que passou a existir, continuar existindo já era o sentido natural e necessário de sua existência.
É razoável supor que o mecanismo relacional exigisse outro capaz de acumular o aprendizado das relações e técnicas aprendidas a fim de continuar utilizando-as. Portanto, ele deveria vir acompanhado de um pequeno depósito para guardar o resultado das relações já percebidas e experimentadas. Teria surgido daí a fala, uma invenção técnica resultante da combinação dos dois mecanismos. Por um lado, a capacidade de relacionar certos sons com a chegada do perigo, a provisão de comida e água, as sensações de dor e satisfação, por exemplo. Por outro, a capacidade de acumular essas relações entre sons e significado para comunicá-los ao bando e ser capaz de compreender tais mensagens nos casos já citados de necessidade de defender-se dos perigos tão presentes em ambientes povoados por outros animais tão mais fortes, de encontrar comida para fornecer a energia gasta nesta labuta cotidiana ou, ainda, realizar o acasalamento para dar continuidade à espécie 1.
Essas capacidades compensaram em grande medida a fragilidade de uma espécie cujos filhotes permanecem dependentes de seus pais durante um tempo demasiadamente longo em comparação a todas as outras espécies. Mesmo jovens e adultos são um tanto fracos na luta corpo-a-corpo e seus corpos nus praticamente não têm resistência a quedas significativas de temperatura. Sozinhos eram inescapavelmente devorados. Programados pela natureza, filhotes devem ser cuidados até que possam sobreviver “por si”, o que, como foi dito antes, entre os humanos leva muito tempo. Jovens e “fortes” já se davam conta de sua enorme fragilidade diante do resto da natureza e desse modo se organizam e criam seus pequenos artefatos para continuar a sobreviver. Pelo mesmo motivo, não se desfazem do aparente estorvo que são os velhos que sobram e resistem à vida tão penosa porque eles constituem um valioso depósito de conhecimento das melhores técnicas de sobrevivência. Mas sabe-se que indivíduos imperfeitos eram deixados à sua própria sorte.
Porém, como se disse, os tais “mecanismo relacional” e o “depósito de relações” parecem ter o inconveniente de não possuírem o modo inativo, o que provavelmente provocou efeitos colaterais, tais como continuar funcionando à noite e nos períodos de repouso. Isso poderia até ser considerado uma falha de projeto ou um fenômeno não previsto, pois o mecanismo relacional é capaz de produzir imagens no depósito de relações enquanto o indivíduo da espécie simplesmente dorme e, inicialmente, o infeliz não terá a mínima possibilidade de identificar essas imagens como “não verdadeiras”. Elas simplesmente fazem parte da sua experiência perceptiva como todas as outras. E ainda, como uma ironia involuntária da natureza, essas imagens construídas e “lembradas” — melhor seria dizer “vividas” — podem ser extremamente fortes e “mostrar” homens com cabeça de urso, ou feras perigosíssimas, ou talvez raios que são, “na verdade”, “armas” de seres muito mais gigantes, etc. Para o depósito de relações, tais imagens, durante o estado do homem “acordado” na natureza, seriam obviamente tão verdadeiras quanto as imagens que, acordado, “via, ouvia, sentia”. Não é improvável que essas imagens começassem também a ser percebidas nas formas das sombras, das nuvens, das estrelas e no resto todo da natureza. A natureza era, portanto, habitada por todos esses seres, embora alguns só aparecessem em condições especiais como ele já podia “observar”.
Foi provavelmente assim, de observação em observação, que, além de sobreviver, o ser humano foi complicando sua sobrevivência ao “perceber” a existência de “outro” mundo, composto por “outros seres” muito mais estranhos e exigentes, aos quais relacionou como seres realmente “superiores” – pois capazes das coisas mais surpreendentes. A estes, sim, deveria temer e, portanto, respeitar. Respeito, todavia, precisa ser demonstrado e, possivelmente, a melhor forma de fazê-lo era oferecer parte – ou tudo, dependendo do tamanho do medo – dos alimentos que obtinha para sua própria sobrevivência. Ou até, quem sabe, indivíduos de sua própria espécie.
Até começar a observar a inexistência de relação efetiva entre esses seres e sua própria sobrevivência, ou, antes, a fazer diferença entre as imagens que via acordado e dormindo, criou muitas fantásticas histórias e estranhíssimos comportamentos chamados rituais – aumentando a demanda do depósito de relações –, o que fez com que melhorasse a linguagem. Ao mesmo tempo, o ser humano ainda fabricava o mundo, dominava-o com instrumentos e técnicas e criava coisas e mais coisas. Muitas delas, porém, absolutamente desnecessárias à sua função de sobrevivência, como certos tipos de objetos destinados apenas à contemplação ou a uma espécie de jogo, objetos esses que podem ser feitos de sons, palavras e imagens em possibilidades extremamente variadas de combinações, que chegam mesmo a ser completamente imprevisíveis. Pois cada coisa dessas, como que seguindo a lei da sobrevivência, ia se multiplicando e se desenvolvendo. E de tudo isso emergiu um mundo enorme de artefatos, histórias, rituais e símbolos que, por sua vez, não parava nunca de crescer nessa atividade “descontrolada” do mecanismo de relação e do depósito de conhecimento.
Além disso, em algum ponto da evolução de seu mecanismo essa espécie observou que observava. E começou a fazer relações também sobre isso – e a guardá-las no depósito de relações. E o que antes poderia ter sido necessidade virou mania. Não bastava saber que era. Precisava saber “que tipo de ser era”. E, depois, para complicar, que tipo de coisa cada coisa era. Não bastava criar coisinhas na natureza como barcos, números e letras. Precisava saber “por que” poderia fazê-lo diferentemente de outros tipos de seres. Não bastava viver. Preocupava-o saber “para quê”.
E por aí vai.
Quer dizer, por aí foi. Desde quando o “ser” “humano” começou a lascar osso e pedra até temer seres imaginários e depois duvidar deles, ele também inventou, no meio do caminho, a si mesmo: esse ser desnecessário e seu universo particular. Nesse outro mundo “emergido” (de invenções, técnicas, artefatos, histórias, linguagens e quetais, como apresentado), as regras do primeiro, de uma natureza nua e crua, não parecem explicar tão satisfatoriamente todos os padrões de comportamento aparentemente estranhos à função da sobrevivência pura e simples.
Para explicar esse fenômeno, poder-se-ia levantar a hipótese, talvez radical, de que a função da sobrevivência tenha sido relegada a um segundo plano em favor de alguma outra função a nós desconhecida. É como se sobreviver não bastasse. Alguns indivíduos da espécie, não poucos, cometem o absurdo inclusive de colocá-la em risco pelas mais variadas razões, além de matarem-se pelos motivos óbvios de busca e manutenção de poder, disputas de território e rivalidades de outro tipo, quando estão então compreensivelmente mais próximos de sua condição inicial de animais na natureza. Há, por exemplo, o motivo particularmente estranho de enfrentar a ordem social do grupo para defender verdades “sobre” a natureza – eles deram a isso o nome de Ciência – ou de desafiar a própria natureza em empreendimentos inicialmente perigosíssimos desde quando mal aprenderam a andar. E andaram rápido, muito rápido, bastante rápido se considerarmos os tantos milhões, bilhões de anos que custaram a aparecer. Lançaram-se ao mar, ao céu e ao espaço e a tudo que fosse desconhecido.
Sim, nesse universo novo, “sobreviver” seria ainda bem mais complicado. A organização dos grupos tornou-se muitíssimo mais complexa e os seres também correram atrás de determinados materiais da natureza aos quais conferiam muito valor, seja pelo brilho que emitiam (seres humanos parecem muito atraídos por objetos que brilham), seja pelo sabor que poderiam agregar aos alimentos. Ah, claro, também não se contentavam mais em suprir suas necessidades de alimentos de maneira simples, como abater um roedor ou outro animal qualquer, bem como colher frutos da natureza. Assar e cozinhar os alimentos foi inicialmente útil para eliminar deles alguma propriedade nociva. Mas foram muito além disso: cercaram essa necessidade tão simples de outras inúmeras possibilidades de combinações de cozimento e instrumentos utilizados para comê-los, além de objetos que estariam ali simplesmente para “enfeitar” tais ocasiões. Os lugares onde vivem e dormem também são cercados das mesmas estranhezas. E como inventam variações para todo tipo de necessidade, como se vestir, comunicar-se e deslocar-se, esses seres são incrivelmente fascinados por novidades.
Enfim, todas essas coisas inúteis acabaram por receber o maior valor entre os grupos de indivíduos e uma parte significativa deles fez desses desejos, afinal, o motivo de sua sobrevivência, repetindo, de certo modo, esse padrão mais previsível da natureza. Mas nunca deixou de existir uma parcela de indivíduos da espécie que insistia em se preocupar com as verdades sobre a natureza, além das tradicionais questões “o que era” (o ser e cada coisa – o “tempo”, por exemplo), “por que era” (idem), “para que era” (ibidem) – que, como dito antes, nasceram como efeito colateral dessa mania de relacionar coisas inúteis e portanto alheias à sua existência física pura e simples. Aliás, nesse campo “a” “Existência”, “o” “Ser”, “o” “Tudo” e “o” “Nada” já não se relacionavam com alguma única coisa de fato existente. Do tipo “Tudo” não é tudo que existe e nem “Nada” não é simplesmente nenhuma coisa. Tudo e Nada são bem mais que tudo e nada. E o Ser não simplesmente é, mas o Ser não pode ser o “não ser”, porém o Ser talvez pode ser o vir a ser, ou ainda pode ser que o ser seja, todavia pode ser que não. A essas “coisas” deram o nome de filosofia. Mesmo entre os próprios humanos os tipos da espécie que se preocupam com isso são considerados um tanto esquisitos. Porque de todas as “coisas” estranhas e desnecessárias que os humanos em geral podem e sabem fazer, essas, certamente, alcançam o mais alto grau. Ainda assim, tais indivíduos não são completamente ignorados pelo resto do grupo, pois são objeto de curiosidade: às vezes por respeito e admiração, outras por troça e deboche mesmo. Também, vez ou outra a mente relacional deles, principalmente no caso dos que se interessam pelo funcionamento da natureza, é capaz de produzir, além dos objetos mais inúteis, aquelas invenções que os humanos usam para ir pra lá e pra cá e para falar uns com os outros, ou aqueles outros objetos, dos menos aos mais complexos, feitos de sons, imagens e palavras, com os quais eles gostam de brincar 2 – mas que em muitos casos levam muitíssimo a sério, organizando verdadeiras hierarquias entre eles de acordo com o grau de competência do jogador e dos especialistas no jogo, com o inventor do jogo, com a atitude do jogador, etc. Por causa disso muitos desses seres ainda mais estranhos conseguem ter sua sobrevivência garantida e/ou tolerada.
Enfim, as invenções e variedades de comportamentos são tantas que o campo para a pesquisa é vastíssimo. Descrever a trajetória de cada uma das relações feitas pelos animais humanos e a pletora de todas e cada uma das relações surgidas a partir delas parece demandar trabalho infinito. Mas, se a partir da síntese exposta pudermos deduzir que, segundo os exemplos citados, quanto mais inútil e/ou estranho, mais humano, então, como queríamos demonstrar, é nesse último universo descrito, o tal feito de coisas inúteis, que a extensão “humano” seguida à palavra “ser” parece ter seu sentido mais específico.
1 Quanto ao desenvolvimento complexo dessa atividade com finalidades reprodutivas, observações superficiais indicam que a cópula provoca efeito distensionante, percebido na forma de grande intensidade de prazer seguido de um aparente cansaço e esgotamento das forças físicas, que tende a levar esses animais a um estado de repouso e pode chegar até a um sono profundo. Uma vez que os seres humanos levam uma vida tão atribulada por necessidades e perigos, esse efeito deve ter garantido o desejo pelo acasalamento e, assim, a sobrevivência da espécie. Já os motivos pelos quais os membros dessa espécie foram criando, paulatinamente, rituais cada vez mais complexos e proibitivos, a ponto de restringirem primeiro a quantidade de parceiros, depois o próprio prazer proporcionado pelo ato, até o caso curiosíssimo e extremo de chegar mesmo a proibi-lo completamente em certos grupos – muitas vezes de forma voluntária! – requereriam desenvolvimento à parte, tão vastos, intrigantes, desnecessários e contrários à pura lei da multiplicação da espécie parecem ser seus efeitos. De qualquer maneira, tal subversão das regras iniciais tem, indubitavelmente, relação com os efeitos provocados pelo mecanismo relacional e de relações que ora apresentamos.
2 Além dessas invenções de caráter aparentemente inofensivo, os seres humanos também foram muito criativos no desenvolvimento de seus primeiros artefatos bélicos a ponto de já serem capazes de destruírem toda a humanidade e seus atuais ecossistemas. Como os grupos rivais mais importantes detêm semelhante poderio, acreditam que a dupla ameaça e a permanente tensão sejam suficientes para evitar o pior.
