No documentário "No Maps for These Territories", o escritor cyberpunk William Gibson percorre Canadá e Estados Unidos dentro de uma limusine enquanto discorre sobre a natureza da realidade da virada do século, que atropelou a ficção cientifica tradicional e tornou as coisas ao nosso redor tão bizarras quanto os sonhos mais loucos desse gênero ficcional (ou até mais).

É curioso observar que o filme, dirigido por Mark Neale, é de 2000, portanto anterior ao 11 de setembro, mas não invalida de modo nenhum o que Mr. Gibson tem a dizer, ao contrário: faz com que seu discurso seja amplificado e tornado ainda mais estranho justamente pelo fato de que até mesmo a bizarra realidade do ano 2000 já parecia uma coisa esperada por Gibson, e conseqüentemente até um pouco tediosa (mas já?).

(Outra observação de janela aqui – caveat lector: hoje estou no modo esquizo, escrevendo em ordem não-linear – é que estranhamente Bruce Sterling escreveu uma história sobre um atentado islâmico aos EUA muitos anos antes: o conto "We See Things Differently", publicado aqui no Brasil pela Conrad, na coletânea "Futuro Proibido", é um excelente exemplar da espécie atirou-no-que-viu-acertou-no-que-não-viu.)

Talvez por isso, por todo esse ennui que o bom escritor mainstream (e alguns dos cyberpunks) costumam afetar com relação à vida de modo geral (algo de tecnobaudelaireano ou de retro-Oscar-Wilde, talvez) que Gibson tenha aderido ao que Bruce Sterling apelidou carinhosa e debochadamente de NOWpunk, ou seja: um cyberpunk não-futurista, ou seja,a vida como ela é. Hoje. Sem cabecismos e sem tentativas de previsão.

A nova trilogia de Gibson é assim. (Uma nota esquizo para os navegantes: embora essa informação ainda não tenha sido confirmada, afirmo sem medo de errar que os dois últimos livros de Gibson, "Reconhecimento de Padrões" e "Spook Country" pertencem a uma trilogia, pois pelo menos um personagem se repete nos dois livros.) As histórias se passam hoje, agora, nos primeiros anos do século vinte e um, acompanhando tudo o que se passa no cotidiano.

O primeiro livro dessa nova fase pé(ciborgue)-no-chão (de silício) foi "Reconhecimento de Padrões", traduzido por este que vos digita. Livro bom, groundbreaking stuff, como se diz nos EUA, ou seja, material que abre novos territórios.

Só que, ao contrário do que Gibson falava no documentário (já lá se vão oito anos desde seu lançamento), o ex-autor cyberpunk rompe com as barreiras que o amarravam a um gênero que andava desgastado. E, em vez de entrar nas novas correntes (como, por exemplo, a do pós-cyber, capitaneada por autores como Neal Stephenson, Cory Doctorow e David Marusek, ou a da New Weird Fiction, de China Miéville e M. John Harrison, ou a New Space Opera, representada galhardamente por Alastair Reynolds, Charles Stross e John Scalzi), ele fez o impensável: deixou de escrever ficção científica.

Ou não?

Sim, porque Já virou clichê do clichê essa história de que a FC morreu porque a realidade a superou. Um gênero literário não morre porque a realidade o atropela. Um gênero literário é ficcional, e sempre estará tão distante da realidade (e ao mesmo tempo tão perto) quanto Aquiles da tartaruga no paradoxo de Zenão. Faraway, so close: perto mas nunca se tocam.

E é preciso que os detratores do gênero se toquem: segundo J.G. Ballard, autor de "Crash" e de "O Império do Sol", “tudo o que eu escrevo é FC porque eu sou um autor de FC”. O mesmo pode se aplicar a William Gibson, ainda que ele passe longe desse tipo de argumentação (como o conselheiro Aires, de Machado, Gibson tem tédio à controvérsia).

Mas com "Reconhecimento de Padrões", Gibson conseguiu algo que não é para qualquer um: escrever uma ficção ambientada no mundo real, no tempo presente, e que lida com a tecnologia, seus fantasmas e seus absurdos tão reais que são cotidianos. O segundo livro da trilogia (de Bigend? Da Web? Não sabemos, a crítica ainda não lhe deu um nome) se chama "Spook Country", e nele Gibson continua sua jornada por uma terra bizarra e que é uma eterna festa-estranha-com-gente-esquisita.

Outro motivo pelo qual se pode afirmar que "Spook Country" é parte de uma trilogia é que ele tem todas as marcas de um Segundo Livro de Trilogia Gibsoniana: o foco na arte, a artista cansada-de-guerra e meio no ostracismo que é contratada por um milionário meio maluco para pesquisar um estranho contêiner de navio, que vale muito mais pelo mapeamento de seu movimento pelo mundo do que pelo conteúdo.

"Reconhecimento de Padrões" também trabalhava com o mesmo tema da profissional-contratada-pelo-milionário (que é o mesmo personagem nos dois livros, o belga Hubertus Bigend). Mas "Spook Country" nos mostra um mundo mais assustador, cru, onde todos vigiam a todos sempre, e nem tudo é o que parece ser. Uma mistura estranha de Cormac MacCarthy e Don DeLillo – sem esquecer, claro, o que parece ser a grande referência de Gibson nessa fase de sua vida e carreira: Thomas Pynchon.

"Spook Country" repete padrões. A diferença está na diferença – de local, de época, de tendência, de estilo. De Gibson, hoje um escritor de quase 60 anos, da geração Beatles/Rolling Stones e que, paradoxalmente, abriu o caminho para a música eletrônica, o dub, a liberdade que só a multiplicidade pode trazer. William Gibson is a prophet, diz o nome de uma comunidade do Orkut. Talvez nem tanto (afinal, como ele não se cansa de dizer em entrevistas, se fosse de fato um profeta ele teria inventado o celular em Neuromancer, coisa que não aconteceu), mas Gibson está cada vez mais atual. Porque desta vez ele deixa mapas para seus territórios. E seus livros não são menos estranhos por causa disso.