Mas continua sendo um mistério impenetrável para o olhar estrangeiro. Afinal, como explicar esta terra para quem vem de fora? Que país é esse? (Renato Russo)

Isso não impede ninguém de tentar. Há de tudo um pouco, do genial ao indizível. Seja na literatura histórica, onde o peruano Mario Vargas Llosa escreveu “A Guerra do Fim do Mundo”, sobre a Guerra de Canudos, seja no cinema, com o pífio e ridículo (e que não será mais comentado aqui) “Turistas”.

Na literatura de ficção científica, território do estranhamento, ou do incrível, fantástico, extraordinário (Almirante), o Brasil sempre foi um prato cheio para escritores estrangeiros – ainda que consumido com parcimônia. Alguns desses livros, como as séries “Construtores de Continentes”, de L. Sprague de Camp, e “Gateway”, de Frederik Pohl, que descrevem futuros próximos onde o Brasil é uma potência tão poderosa quanto ou maior que os Estados Unidos, foram publicados no Brasil ou em Portugal. Outros, como “Through the Arc of the Rainforest” e “Brazil-Maru”, da pesquisadora nipo-americana Karen Tei Yamashita, são praticamente desconhecidos do público brasileiro. Cada um dos livros citados acima analisa o Brasil de uma perspectiva singular, seja globalizada (o caso de Camp e Pohl) ou mais regionalista (Yamashita).

Mas ninguém até agora havia tentado escrever um livro de ficção científica onde o Brasil figurasse não apenas como um participante exótico da política mundial ou da corrida espacial, mas como o protagonista da história. É o caso do livro “Brasyl”, do escocês Ian McDonald.

“Brasyl” é um livro complexo: alterna três épocas (a Salvador de 1732, pouco antes da expulsão dos jesuítas pelo Marquês de Pombal, o Rio de Janeiro de 2006 e a São Paulo de 2032), todos os seus personagens, à exceção do padre escocês Luis Quinn, são brasileiros (como a loiraça-belzebu carioca Marcelina Hoffmann) e a história gira em torno de uma experiência de mecânica quântica realizada na USP (!) que cria portais para terras alternativas.

O ponto negativo de “Brasyl” é que, de suas 400 e poucas páginas, a história propriamente dita só começa a se desenrolar por volta da página 200. Antes disso, o livro faz uma longa apresentação do jeito de ser dos brasileiros e da paisagem local. O que é mais do que normal, já que esse livro foi escrito por um escocês em língua inglesa para inglês (e americano) ler. Ou seja, o brasileiro é o protagonista, mas não é o leitor ideal dessa obra.

O livro se passa nas ruas de Copacabana, dentro de emissoras de TV (as referências a jornais, canais de TV e outros detalhes de cor local são nota 9,5 – um errinho de ortografia aqui e ali, mas tudo bem), nas raves de Sampa, nos morros cariocas e no Norte-Nordeste do Brasil-Colônia. O livro é daqueles que fazem a gente ficar pensando: se um escocês conseguiu escrever sobre isso, por que diabos um brasileiro não escreveu isso ainda?

Também não sejamos espíritos-de-porco. Já dizia Tom Jobim que o brasileiro tem inveja do sucesso alheio. Desse mal não sofro: Ian McDonald é um tremendo escritor, quase do tipo que eu gostaria de ser quando crescer. Provas para decidir no tapetão? Livros como a excelente novela cyberpunk “Scissors Cut Paper Wrap Stone”, ou a série “Chaga”, ambientada na África. McDonald gosta de escrever sobre o Outro, sobre aquilo que está fora de seu território original de experiência. E não é disso que a ficção científica trata ou deveria tratar?

E também não sejamos injustos: se existiu no Brasil um livro relacionado à ficção científica que conseguisse falar de Brasil sem resvalar no folclórico ou no exótico (embora seja rico em sátira), esse livro é o esgotado mas nunca esquecido “Santa Clara Poltergeist”, de Fausto Fawcett. Tirando Santa Clara, e mais um punhado que pode ser contado numa das mãos de alguém que perdeu uns dedos com rojão de festa junina, não existe um livro de ficção científica brasileiro que trate de Brasil com brasilidade.

Falar disso é iniciar uma longa polêmica, coisa que não pretendo. Mas, ao dizer brasilidade, não estou falando de patriotadas verde-amarelas, e também não me refiro a folclore ou sátiras do tipo Jeca Tatu ou Macunaíma (por mais geniais que elas sejam, diga-se de passagem). O Brasil está cheio de livros onde se vê uma linguagem que não pertence ao reino das séries de TV dos EUA ou traduções malfeitas (coisa que meu saudoso professor de tradução Daniel Brilhante de Brito costumava chamar de “dublagês”), mas que mostra os diferentes brasis que temos, com diferentes linguagens, mas todas possíveis.

Exemplos? Vamos lá: de Lima Barreto a Rubem Fonseca, passando por Ana Miranda, Marçal Aquino, Daniel Galera. O Brasil é a Minas de Otto Lara Resende, Drummond, Autran Dourado e Guimarães Rosa (e só nesses quatro autores já são quatro Minas diferentes), é o Rio de Sérgio Porto, Machado de Assis, Victor Giudice, Rubem Fonseca, a São Paulo de Ignácio de Loyola Brandão, Lygia Fagundes Telles e João Antonio, o Amazonas de Marcio Souza e Milton Hatoum, a Curitiba de Jamil Snege e Paulo Leminski, o Rio Grande do Sul de Tabajara Ruas, Josué Guimarães e Letícia Wierchowski.

E não estou nem falando das linguagens impossíveis, e por isso mesmo maravilhosas, de Paulo Leminski (que tanto podia nos trazer uma sátira a Vladimir Propp com “Agora é Que São Elas” quanto pirar com Descartes no Brasil com o “Catatau”) ou do pop-surrealismo do recém-falecido José Agrippino de Paula, que mistura chiclete com banana em histórias que envolvem ícones da cultura ocidental como Marilyn Monroe e Che Guevara. Daí a pensarmos na dupla Marioswald (como Mario de Andrade e Oswald de Andrade volta e meia se autonomeavam em sua correspondência), com “Macunaíma”, “Serafim Ponte Grande”, “O Rei da Vela” e outras obras. Isso, evidentemente, não é nem o começo de tanta história.

A ficção científica brasileira não começou ainda a trilhar esse caminho. Vivemos bunuelescamente num estranho caminho de Santiago, onde um ou outro peregrino passa – e apenas um ou outro rastro ocasional dá aos outros viajantes um sinal do que fazer, ou do que não fazer. Peregrinos-pioneiros como Arne Sakhnussen – para fazer uma homenagem science-fictional a Julio Verne em seu “Viagem ao Centro da Terra”.

McDonald marcou um gol neste livro. Não foi de placa nem olímpico, mas um gol honesto, bem-feito, sem erros de arbitragem. E, como no bom futebol (categoria em que o Brasil já foi mestre há bem pouco tempo), quem não faz leva. A ficção científica brasileira não fez.