arte holográfica

 

Conceito

Em 1948, o físico húngaro Dennis Gabor descobriu e desenvolveu tecnicamente um novo princípio óptico baseado nas interferências de ondas luminosas: a holografia. A característica básica deste processo é que cada ponto do filme, isto é, do holograma, armazena informações sobre o objeto inteiro registrado, por meio de um complexo código microscópico. Quando uma luz incide sobre o holograma, as imagens guardadas saltam para o espaço, isto é, forma-se uma imagem virtual que reconstitui o objeto em sua tridimensionalidade. Como cada ponto contém informações sobre o objeto inteiro e como cada olho capta um momento diferente do registro holográfico, quando as imagens captadas pelos olhos juntam-se no cérebro, surge o efeito de três dimensões. O holograma é esta imagem tridimensional configurada pela luz.

A arte holográfica foi apresentada ao Brasil em exposições de Dieter Jung, no Masp, São Paulo, em 1975 e 1984. Na 15ª Bienal Internacional de São Paulo, em 1979, tivemos também trabalhos de Setsuko Ishii. Mas considera-se que a primeira exposição holográfica feita por um brasileiro ocorreu em 1982, quando José Wagner Garcia expôs no MIS, São Paulo, a sua primeira mostra de holografia, com trabalhos seus realizados na Inglaterra.

Em 1983, com apenas um manual de holografia, um equipamento básico e muito senso de improvisação, Moysés Baumstein criou seu primeiro holograma, utilizando a técnica rainbow, criada pelo norte-americano Steven Benton. Esse tipo de holograma permite à imagem assumir as cores do espectro de acordo com a altura em que se situa o espectador. Moysés refinou esse processo a tal ponto que hoje acabou ficando entre os oito ou nove mais aperfeiçoados representantes da técnica no mundo. Entre as suas muitas conquistas, ele conseguiu que seus hologramas fossem vistos em salas iluminadas. Em 1984, tivemos, no MIS, a primeira mostra de hologramas de Moysés Baumstein.

Em 1985, dentro da exposição Arte e Tecnologia, organizada por Julio Plaza e Arlindo Machado, no MAC/USP, tivemos a primeira exposição coletiva de arte holográfica brasileira, com a participação de Augusto de Campos, Décio Pignatari, Eduardo Kac, Fernando Catta-Preta, Julio Plaza, Moysés Baumstein e José Wagner Garcia. Em novembro de 1987, novamente no MAC/USP, tivemos a mostra Idehologia, que apresentou criações holográficas de Augusto de Campos, Décio Pignatari, Julio Plaza, Moysés Baumstein e José Wagner Garcia. Idehologia reuniu quinze trabalhos, alguns já apresentados na mostra Arte e Tecnologia: dois de José Wagner Garcia (Céu e Mente, Gag); dois de Décio Pignatari (Spacetime, Joystick); três de Moysés Baumstein (Papamorfoses, Máscaras, Voyeur); quatro de Augusto de Campos (Rever I e II, Risco, Poema-Bomba); três de Julio Plaza (Arco-Íris no Ar Curvo, Cubos, Limite do Corpo); e uma parceria de Plaza/Augusto (Mudaluz). Todos os trabalhos foram holografados por Moysés Baumstein, à exceção da primeira versão de Rever, que foi produzida por John Webster em Londres, em 1981. Predominantemente, a mostra consistiu em poemas concretos adaptados para holografia. No poema Organismo, de Décio Pignatari, por exemplo, a sucessão das folhas reverbera em fotogramas em movimento. No Poemóbile, temos o vôo tridimensional das cores nas palavras-metamorfoses cinéticas de Augusto de Campos e Julio Plaza. Arco-Íris no Ar Curvo, de Julio Plaza, é o espaço curvo da física einsteniana, com ininterruptas mutações de luz. E o mesmo espaço curvo informa ainda o Espaztempo/Spacetime, de Décio Pignatari. José Wagner Garcia assume o ponto de vista de um satélite artificial para holografar um monolito que projeta sua sombra sobre a terra, em Céu e Mente. O Poema-Bomba, de Augusto de Campos, apresentava uma semântica explosiva, derivada da semelhança gráfica das letras das duas palavras: poema e bomba. E Voyeur, de Baumstein, tirou proveito do deslocamento do espectador e da progressiva desaparição da imagem quando aquele se aproxima do suporte (placa holográfica). Assim, uma enorme fechadura, projetada a 2 metros, focaliza uma caverna de caveiras. Quando nos aproximamos da fechadura, a imagem se volatiliza numa poeira de luz, deixando o voyeur preso à fechadura.

Outro grande experimentador da holografia é Eduardo Kac. O seu reconhecimento internacional nessa área pode ser avaliado pelo fato de ter recebido, em 1995, o Shearwater Foundation Holography Award, o prêmio de maior prestígio no campo da arte holográfica. No período de 1983 a 1993, Kac produziu cerca de 23 poemas holográficos sobre temas poéticos, que ele identificava com o nome holopoesia. Entre eles, Holo/Olho, produzido em 1983 com Fernando Catta-Preta (outro importante produtor holográfico no país); Chaos, um holograma de reflexão em três cores produzido em 1986 e que está na coleção do Museu do Massachusets Institute of Technology, MIT (Boston, Estados Unidos); e Zero, um estereograma holográfico multicolorido, produzido em 1991, que está na coleção do Museu da Holografia de Chicago, Estados Unidos. Sobre sua holopoesia, Kac já escreveu vários artigos, e muitos ensaios sobre sua obra holográfica foram escritos por diferentes autores (veja bibliografia de Eduardo Kac). Além disso, alguns dos hologramas de Kac fazem parte de importantes coleções públicas internacionais de holografia. A primeira retrospectiva de hologramas de Eduardo Kac aconteceu em 1986, no MIS, São Paulo, mas a sua exposição mais ambiciosa foi Quando?, uma experiência de holofractal (holograma giratório gerado em computador, explorando as imagens fractais, capaz de dar uma imagem paradoxal de 720 graus de rotação), realizada em co-autoria com Ormeo Botelho e exibida no Salão Funarte, no Rio de Janeiro, em 1988.

Deve-se ainda destacar o empenho de Ivan Negro Ísola em difundir e propiciar condições para as pesquisas com arte holográfica no Brasil, durante sua gestão no MIS, e de José Joaquim Lunazzi, professor da Unicamp e importante pesquisador brasileiro da tecnologia da holografia.

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