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arte na rede/web art

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CONCEITO
Nos anos 80, o artista britânico David Hockney produziu um pequeno escândalo em São Paulo, quando a obra por ele concebida para participar de uma das edições da Bienal foi enviada por fax, por causa de uma celeuma envolvendo as pesadas despesas com transporte e seguro. Estávamos então apenas iniciando a discussão da "desmaterialização da arte", ainda sob o impacto da polêmica exposição de obras "imateriais" (Les Immatériaux) organizada por Jean-François Lyotard no Centro Pompidou de Paris em 1985, e a idéia de uma obra "teletransportada" soava estranha aos nossos hábitos perceptivos fortemente marcados pela presença de objetos físicos "únicos" no espaço de exposição. No limite, se as obras se desmaterializam e se multiplicam, não faz mais sentido pensar num espaço físico para expô-las, ou num lugar para onde o público deveria se dirigir em períodos preestabelecidos. Elas poderiam ser recebidas em casa pelos mais variados meios, como o telefone, o videofone, o fax, o rádio e a televisão, ou ser "acessadas" por meio de redes telemáticas como a Internet.

Talvez a Bienal do futuro não aconteça mais num prédio instalado no Parque Ibirapuera, que abre as suas portas uma vez a cada dois anos para uma celebração coletiva. A Bienal do futuro poderia ser uma rede de conexões entre artistas e instituições que fazem trabalhos criativos, não localizada em lugar algum, disponibilizada para o acesso público e organizada por um corpo de curadores espalhados por todo o mundo. Organizar uma exposição poderia significar interligar várias experiências que já acontecem no campo "desmaterializado" das redes telemáticas, oferecendo ao visitante (agora chamado de usuário) conceitos ou idéias-chave que permitam compreender determinados campos de acontecimentos. Visitar a Bienal poderia significar simplesmente ligar o computador e apontar o browser para o seu endereço eletrônico.

A web art ou net art é o setor mais recente dentro do sempre mutante campo das artes eletrônicas. Ela representa uma fusão da arte-comunicação com a arte digital. Historicamente, a arte-comunicação utilizou recursos predominantemente não digitais (mail art, fax, telefone, slow-scan TV, etc.) ou semidigitais (videotexto) para estabelecer contatos de comunicação, enquanto as artes digitais não lidavam ainda com o conceito de comunicação. A web art, num certo sentido, dá continuidade à idéia de comunicação, mas agora dentro de um contexto nitidamente digital e valendo-se dessa gigantesca rede mundial de computadores chamada Internet. Ela já permite hoje experimentar uma antevisão desse futuro próximo em que a Bienal - e também as galerias, os centros culturais - poderão existir em forma virtual.

Em junho de 1992, destacamos o projeto Moone: La Face Cachée de la Lune, de Gilbertto Prado, construção de desenhos e imagens em tela, partilhada em direto, via Rede Numérica de Serviços Integrados, RNSI, entre os Cafés Électroniques de Paris e a 9ª Documenta, Kassel, Alemanha. O objetivo era construir, com parceiros distantes (e eventualmente desconhecidos), uma imagem híbrida e composta em tempo real. Utilizou-se o princípio de tela partilhada, que permite a construção de imagens simultaneamente em rede, com participantes em locais distantes. Quando se trabalha com esse dispositivo, pode-se ter a mesma imagem em diferentes monitores para trabalhá-la a distância, da mesma forma que o movimento dos mouses é partilhado em tempo real.

De 20 a 25 de agosto de 1994, durante o 5th International Symposium on Electronic Art, a participação do *.* (asterisco-ponto-asterisco, grupo formado por Artemis Moroni, José Augusto Mannis e Paulo Gomide Cohn) apresentou o projeto The Electronic Carnival, diálogo e construção de personagens via Internet.

Em 3 de setembro do mesmo ano, aconteceu o Telage 94, um intercâmbio de imagens e sons, via modem, projeto coordenado por Carlos Fadon Vicente, em São Paulo, por Eduardo Kac, em Lexington (Estados Unidos), por Irene Faiguenboim, no Recife, e por Gilbertto Prado, em Campinas. Entre os participantes, podemos também citar Renato Hildebrand e Silvia Laurentiz. O Telage 94 fez parte do megaevento Arte Cidade 2: a cidade e seus fluxos, organizado por Nelson Brissac Peixoto, em 1994. A proposta foi criar uma trama eletrônica de conexões entre diferentes cidades, que se tecia entre as diferentes imagens processadas. Uma imagem distinta era introduzida em cada ponto do circuito e retrabalhada pelos demais participantes.

De 1989 até 1996, Kac desenvolveu o projeto Ornitorrinco. Em 1989, ele começou a trabalhar com Ed Bennett em Chicago e dessa parceria foi projetado, testado e construído o Ornitorrinco, um telerrobô que podia ser controlado a partir de longas distâncias. A primeira experiência desse projeto aconteceu em 1990, num link entre as cidades do Rio de Janeiro e de Chicago. Do Rio de Janeiro, Kac controlava o Ornitorrinco em Chicago, via conexão telefônica. Depois dessa primeira experiência, muitas outras aconteceram, utilizando o mesmo conceito desse trabalho. Ornitorrinco ficou então o nome dado tanto aos trabalhos de arte de telepresença em andamento quanto ao telerrobô que os realizava.

Por princípio, os eventos do Ornitorrinco envolviam duas localidades distintas, porém, nada impedia que mais pólos estivessem conectados. Um ou mais membros do público navegavam por instalação ou local remoto, pressionando teclas de telefone comum ou clicando o mouse do computador. Recebiam, então, feedback visual sob a forma de imagens fixas ou em movimento, em tela de computador ou monitor de vídeo. Freqüentemente ocorriam encontros de comunicação via Internet, não com trocas verbais ou orais, mas por meio de ritmos resultantes do envolvimento dos participantes de uma experiência compartilhada no mesmo meio. Os visitantes, nas palavras do autor, experimentavam juntos, no mesmo corpo, um lugar longínquo e inventado sob perspectiva impessoal, que suspendia temporariamente as noções de identidade, localização geográfica e presença física.

Entre os vários eventos envolvendo o Ornitorrinco, podemos citar os que se seguem. Em 1992, acontece o Ornitorrinco in Copacabana: uma estação pública de telepresença estava posicionada no McCormick Place, na Conferência Siggraph de 1992, e dali se podia controlar o Ornitorrinco em ambiente especialmente criado na The School of the Art Institute of Chicago. Em 1993, o Ornitorrinco on the Moon foi apresentado entre a The School of the Art Institute of Chicago e The Kunstlerhaus (Graz, Áustria), durante a exposição austríaca Beyond Borders. Em 1994, Ornitorrinco in Eden foi experimentado num evento de telepresença na Internet. Existiam duas estações públicas de telepresença, uma em Seattle e outra em Lexington. O Ornitorrinco estava em um ambiente no Departamento de Arte e Tecnologia na The School of the Art Institute of Chicago. Esses três pólos estavam ligados via ligação telefônica por 3-vias, para controle de movimento em tempo real. As cidades estavam também conectadas pela Internet via tecnologia CU-See-Me, que retransmitia constantemente as mudanças de pontos de vista do ambiente do robô. Usuários de várias cidades americanas e de outros países (incluindo Finlândia, Canadá, Alemanha e Irlanda) podiam acessar e assistir ao que se passava no espaço (registrado pelo movimento do robô) em Chicago, pelo ponto de vista do Ornitorrinco.

Em 1996, surge o Ornitorrinco in the Sahara, um evento de telepresença dialógica criado para a Bienal de St. Petersburg, na Rússia. A topologia desse evento estava baseada no uso de duas linhas telefônicas separadas. Uma linha conectava o Museu de História de St. Petersburg ao Departamento de Arte e Tecnologia da The School of the Art Institute of Chicago. A segunda linha conectava este Departamento em Chicago à The Aldo Castillo Gallery.

A primeira curadoria de web art no Brasil foi feita por Ricardo Ribenboim e Ricardo Anderáos para a 24ª Bienal Internacional de São Paulo, que ocorreu em 1998. Ela ofereceu ao público de qualquer parte do mundo a oportunidade de fazer um outro tipo de visita à Bienal, em que nem os artistas nem o público precisavam se deslocar fisicamente até São Paulo. Numa primeira acepção, a curadoria consistiu em propor uma coleção de links que permitiam dar forma, consistência e acesso a um conjunto já bastante expressivo de experiências artísticas que estavam acontecendo naquele momento na web. Não apenas trabalhos brasileiros foram indicados, mas também trabalhos de artistas internacionais já consagrados, com é o caso do grupo Jodi (abreviatura de Joan Heemskerk e Dirk Paesmans), referência inevitável em qualquer antologia de web art. Os trabalhos foram agrupados em torno de conceitos, que permitiam distinguir diferentes perspectivas estéticas e existenciais. A interface proposta dava a impressão de um organismo vivo em permanente mutação e se apresentava como um work in progress, capaz de assimilar inclusive a colaboração dos visitantes no preenchimento dos conceitos com indicações de novos sites ou modificação dos já existentes.

A idéia de organizar o acesso e a navegação em torno de conceitos tem a sua razão de ser. A web é hoje uma gigantesca e caótica acumulação de sites, páginas, frames e links, com conteúdos, formas gráficas e interfaces de toda espécie, abrangendo do melhor ao pior, do confiável ao desconfiável, do déjà-vu ao absolutamente imprevisível. Mais do que em qualquer outro campo de experiências, a web necessita de bússolas e faróis, que permitam tornar produtiva a tarefa de navegação e sobretudo atracar em porto seguro. Quando o que se busca é apenas informação, um bom mecanismo de procura (search) pode ser suficiente. Mas quando se trata de descobrir propostas e atitudes inventivas, é preciso que os próprios instrumentos sejam também criativos e abertos à irrupção do improvável. Uma curadoria adequada às experiências criativas na web deve, portanto, ter expertise suficiente para descobrir a interface adequada, capaz de permitir a navegação num ambiente que não é mais apenas um banco de dados. Se a web é realmente um organismo vivo, em contínuo movimento e metamorfose, com sites surgindo, desaparecendo ou se transformando a todo momento, não é preciso muito esforço para perceber que os seus mecanismos de pesquisa e navegação devem ter a mesma mobilidade.

Por outro lado, a curadoria de Ribenboim e Anderáos inovou também por incorporar trabalhos encomendados especificamente para essa seleção.

É o caso de Valetes em Slow-Motion, de Kiko Goifman e Jurandir Müller, sobre o tema dos encarcerados, que pode ser considerada uma das experiências brasileiras mais ousadas feitas no terreno da web art, tanto do ponto de vista da forma como do conteúdo. Contando com a colaboração de Alberto Blumenschein (webmaster) e Silvia Laurentiz (ambiente tridimensional interativo em formato VRML), o trabalho permitiu uma reflexão densa sobre a vida nas prisões e a psicologia dos detentos, abrindo a possibilidade inclusive de um contato ao vivo (através da tecnologia CU-See-Me) entre os visitantes da Bienal "virtual" e os detentos do Presídio da Papuda, em São Sebastião (DF), em dias e horários previamente marcados. Na verdade, o trabalho de Goifman e Müller explora ironicamente a idéia de controle a distância (o conceito através do qual ele pode ser acessado é "monitoramento"), alertando para a possibilidade de uma vigilância universal através da web.

Na 24ª Bienal Internacional de São Paulo, foi apresentado também o projeto-instalação Colunismo, de Gilbertto Prado. A instalação consistia em um "portal", com duas webcams conectadas à rede Internet, que eram disparadas por sensores dispostos no espaço físico da instalação pela passagem dos visitantes. Uma vez capturada em tempo real essa imagem local, ela era mesclada com outras (de um banco de imagens sobre o olhar estrangeiro, sobre a antropofagia, a pop art, cidades e outras categorias) e disponibilizada via Internet para todo o planeta. Outros participantes, fisicamente distantes, via webcam, podiam observar o espaço e a geração de novas imagens locais. Esse trabalho esteve exposto também na mostra City Canibal, no Paço das Artes, em São Paulo, de 4 de setembro a 31 de outubro de 1998.

Com o florescimento da web art, o acesso remoto à Bienal ou a qualquer outro evento artístico está deixando de ser uma possibilidade marginal para se tornar a própria natureza das próximas montagens. Se no futuro os parangolés se transformarem em wearable computers (computadores de vestir) e os objetos relacionais forem desmaterializados em ambientes de realidade virtual, a Bienal, mesmo deslocalizada, ainda terá uma razão para existir: ela continuará representando o esforço sempre necessário de concentrar a criatividade dispersa e difundir no tecido social as experiências humanas de liberdade.

Ainda neste mesmo ano, Tânia Fraga organizou (e participou de) o projeto Xmantic na Web, aceito em concurso da Unesco realizado em 1998. A proposta do projeto era criar um link multicultural entre povos de culturas distintas. Assim, procuraram-se analogias entre os xamãs das culturas tribais e os equivalentes em outras culturas ocidentais contemporâneas. Xmantic na Web é o primeiro resultado do Laboratório Virtual de Pesquisa em Arte (criado em 1996) da Universidade Federal de Brasília, onde artistas, estudantes e pesquisadores entram em contato com o mundo para criar um diálogo multicultural no campo da arte telemática.

Criada por: Juliana última modificação em: Sábado 18 of Novembro, 2006 [08:58:46 UTC] por Juliana


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