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Olhar Eletrônico

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Histórico

Grupo paulistano criado em 1981 por jovens recém-saídos da FAU/USP. A primeira formação compreendia Fernando Meirelles, Marcelo Machado, José Roberto Salatini e Paulo Morelli. Mais tarde, outros nomes iriam ser incorporados ao grupo, como Renato Barbieri e Marcelo Tas (mais conhecido sob o pseudônimo de Ernesto Varela). A partir de 1983, o grupo colaborou em programas de televisão experimentais, tais como Olho Mágico, 23ª Hora e Crig-Rá, todos na TV Gazeta de São Paulo. O grupo se dissolveu no final dos anos 80.

IMPORTÂNCIA DE SUA OBRA
O Olhar Eletrônico vai buscar, em seus trabalhos mais conseqüentes, quebrar qualquer relação de saber ou autoridade que possa existir entre o realizador e o sujeito enfocado, evitando sobrepor às imagens deste último um pretenso discurso da verdade e criando dispositivos para que o enfocado possa responder ele próprio, com autonomia, às indagações do primeiro. Trata-se, fundamentalmente, de inverter o esquema viciado das reportagens das redes comerciais, que reduzem toda a diversidade ideológica, cultural, lingüística, étnica e religiosa do povo que habita o país a um discurso integrador e normalizador, o discurso da instituição televisual. Devolver a palavra ao povo, deixar que o enfocado se coloque livremente, fazer com que as técnicas de produção se tornem transparentes aos protagonistas - tais são alguns dos princípios norteadores do trabalho do Olhar, que podem ser identificados, por exemplo, em Do Outro Lado de Sua Casa (1986). Nessa obra exemplar, os realizadores Marcelo Machado, Renato Barbieri e Paulo Morelli enfocam o universo cotidiano de um grupo de mendigos que vivem mais ou menos à margem da sociedade. Não há aqui, entretanto, mais nada daquele sentimento de comiseração ou de culpa que marca uma certa maneira cristã ou católica de encarar as populações humildes. Pelo contrário, à medida que o vídeo evolui, os indigentes começam a impor o seu próprio discurso e a colocar com autonomia a singularidade de sua visão do mundo. Um dos mendigos, inclusive, acaba por assumir a própria enunciação do trabalho e, de microfone em punho, passa ele mesmo a dirigir as entrevistas com seus parceiros. Aqui, numa virada perturbadora, o objeto da investigação passa para trás das câmeras e se torna também sujeito da investigação, impedindo qualquer abordagem humilhante para os enfocados.

Na busca de uma relação mais produtiva com a complexa realidade brasileira, o Olhar Eletrônico inventou a figura de um anti-repórter trapalhão, chamado Ernesto Varela (interpretado por Marcelo Tas), cuja ingenuidade notória lhe permitia estabelecer um contato inteiramente novo com o motivo enfocado. Só mesmo um Varela, com sua cara de boboca, mas com uma sabedoria interior, poderia ter chegado ao candidato oficial da ditadura militar à presidência da república, Paulo Maluf, e lhe desferido uma pergunta à queima-roupa, para desconforto de todos os demais jornalistas: "É verdade, Sr. Maluf, que o senhor é um ladrão?" Varela é, ao mesmo tempo, uma paródia corrosiva do telejornalismo convencional e uma nova proposta de jornalismo, em que a equipe busca se aproximar mais do homem comum, ganhar a sua confiança e a sua adesão, para poder melhor lhe dar a palavra.

Outra inovação importante do Olhar Eletrônico é a forma de dirigir as entrevistas. Em geral, no telejornalismo vulgar, o repórter praticamente induz a resposta através da maneira como conduz as entrevistas. As perguntas são sempre estereotipadas e pressupõem respostas também estereotipadas, tais como aquelas que vemos e ouvimos diariamente na programação televisual. Uma forma de perfurar esquemas viciados é reinventando inteiramente a instituição da entrevista. O Olhar Eletrônico enfrentou esse desafio por meio de suas perguntas "impossíveis" e inesperadas, que estimulam respostas pouco convencionais e barram qualquer recurso ao repertório de chavões. Perguntas-surpresas, às vezes até mesmo absurdas, despertam a criatividade pessoal dos abordados, abrindo espaço para uma colocação mais pessoal e mais autêntica. Esse procedimento está disseminado por toda a produção do Olhar, tanto nos vídeos produzidos para circuitos fechados, quanto nas intervenções em programas de televisão. Prova de que a idéia deu certo é o fato de que hoje o procedimento se generalizou por toda a produção independente, de forma que, em geral, já se pode identificar o produto alternativo pela originalidade de suas entrevistas.

O Olhar Eletrônico foi um dos grupos que mais ajudaram a sacudir o bolor da mídia eletrônica, experimentando soluções arrojadas e jamais antes encontradas na rotina televisual. Veja-se o caso de Brasília (1982), um pequeno experimento realizado por Fernando Meirelles. As imagens que preenchem esse estranho "documentário" são as paisagens estereotipadas da cidade de onde emana o arbítrio político (recordemo-nos de que o vídeo foi realizado em plena ditadura militar): clichês, tomadas de cartão-postal de palácios, edifícios e catedrais, com seus vitrais coloridos e seus jardins babilônicos. Nada haveria de especial nesse trabalho e ele poderia mesmo ser tomado como uma "visão poética da cidade" (como foi anunciado num catálogo de vídeo) se a sua edição não estivesse arruinada por contínuos rompimentos, vazios estruturais que quebram a continuidade das cenas, deixando a tela branca várias vezes e durante muitos segundos. Esses "buracos", essas lacunas abalam a coerência figurativa das imagens, essas imagens que, num outro contexto, poderiam parecer tão perenes e familiares, e isso causa uma certa irritação no espectador, quando não a sensação de que alguma coisa está errada com esse vídeo. Como se isso não bastasse, os hinos patrióticos que preenchem a trilha sonora e que constituem uma espécie de som oficial da cidade encontram-se também fragmentados e desarticulados, como se fossem feitos de um tecido esgarçado ou tivessem sido corroídos por alguma estranha espécie de predador.

Em Tempos (1982), um pisca-pisca eletrônico com imagens "pirateadas" da televisão e editadas praticamente no quadro a quadro e, também, em Marli Normal (1983), o dia-a-dia de uma escriturária, narrado por meio de planos rapidíssimos em ritmos alternados, por muitos considerado o melhor trabalho do Olhar, podemos perceber o caráter inovador do grupo.

Criada por: Juliana última modificação em: Sábado 18 of Novembro, 2006 [09:10:35 UTC] por Juliana


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