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hibridismo/hipermídia

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CONCEITO
Expressões como hibridismo, mestiçagem ou poética das passagens começaram a ser utilizadas na exposição Passages de l'Image, organizada em Paris, em 1990, por Raymond Bellour e outros, para referir-se à dissolução das fronteiras entre os suportes e as linguagens, bem como também à reciclagem dos materiais que circulam nos meios de comunicação. As imagens são compostas agora a partir de fontes as mais diversas: parte é fotografia ou cinema, parte é desenho, parte é vídeo, parte é texto produzido em geradores de caracteres e parte é modelo gerado em computador. Por sua vez, os sons são ora registros brutos ou processados, ora sínteses produzidas em computador e ora o resultado de um "sampleamento" (edição e metamorfose de amostras gravadas). Na série Connexio, de Diana Domingues, por exemplo, cada plano é um híbrido, constituído de figuras em migração permanente, onde já não se pode mais determinar a natureza de cada um de seus elementos constitutivos, tamanha é a mistura, a sobreposição, o empilhamento de procedimentos diversos, sejam eles antigos, sejam modernos, sofisticados ou elementares, tecnológicos ou artesanais.

Segundo Ítalo Calvino, a multiplicidade exprime um modo de conhecimento do homem contemporâneo, onde o mundo é visto e representado como uma "rede de conexões", uma trama de relações de uma complexidade inextricável. Recursos recentes de edição digital permitem, por exemplo, jogar para dentro da tela uma quantidade quase infinita de imagens e sons simultâneos, para fazê-los combinarem-se em arranjos inesperados, como que atualizando a idéia de uma montagem "vertical" ou "polifônica", formulada por Serguei Eisenstein nos anos 40. A técnica mais utilizada consiste em abrir "janelas" dentro do quadro para nelas inserir novas imagens e, ao mesmo tempo, multiplicar as fontes sonoras em vários canais de som. Toda a arte eletrônica que segue a trilha aberta por Nam June Paik e todas as modalidades computadorizadas de multimídia apontam hoje para a possibilidade de uma nova "gramática" dos meios audiovisuais, que consiste em superpor tudo (múltiplas imagens, múltiplos textos, múltiplos sons), ou imbricar as fontes umas nas outras, fazendo-as acumular infinitamente dentro do quadro. Trata-se, segundo alguns, de uma estética da saturação, do excesso (a máxima concentração de informação num mínimo de espaço-tempo) e também da instabilidade (ausência quase absoluta de qualquer integridade estrutural ou de qualquer sistematização temática ou estilística), mas essa também pode ser uma maneira mais adequada de representar a complexidade.

O universo das artes eletrônicas apresenta-se de forma múltipla, variável, instável, complexa e ocorre numa variedade infinita de manifestações. A eletrônica pode hoje estar presente em esculturas, instalações multimídias, ambientes, performances, intervenções urbanas, até mesmo em peças de teatro, salas de concerto e shows musicais, conforme se pode verificar de forma bastante enfática na obra performática de artistas como Renato Cohen, Bia Medeiros (e seu grupo Corpos Informáticos) e Artemis Moroni (e seu grupo *.*), ou nas instalações e performances de Anna Barros e Josely Carvalho. As obras eletrônicas podem, portanto, existir associadas a outras modalidades artísticas, a outros meios, a outros materiais, a outras formas de espetáculo. Como conseqüência dessa generalização da imagem e do som eletrônicos, os artistas que os praticam, bem como os públicos para os quais se dirigem, tornam-se cada vez mais heterogêneos, sem qualquer referência padronizada, perfazendo hábitos culturais em expansão, circuitos de exibição efêmeros e experimentais, que resultam em verdadeiros quebra-cabeças para os fanáticos da especificidade. Eis porque falar de arte eletrônica significa colocar-se fora de qualquer território institucionalizado. Trata-se de enfrentar o desafio e a resistência de um objeto híbrido, em expansão, fundamentalmente impuro, de identidades múltiplas, que tende a se dissolver camaleonicamente em outros objetos ou a incorporar seus modos de constituição.

A imagem e o som eletrônicos invadem hoje todos os setores da produção cultural, comprometendo todas as especificidades. A tela eletrônica representa agora o local de convergência de todos os novos saberes e das sensibilidades emergentes que perfazem o atual panorama da visualidade. Nesse estado de coisas que agora se configura, a imagem perde cada vez mais os seus traços materiais, a sua corporeidade, a sua substância, para se transfigurar em alguma coisa que não existe senão no estado virtual, desmaterializada em fluxos de corrente elétrica. Como acontece com nossas imagens mentais, aquelas que brotam do imaginário, as imagens eletrônicas são fantasmas de luz que habitam um mundo sem gravidade e que só podem ser invocadas por alguma máquina de "leitura", atualizadora de suas potencialidades visíveis.

Criada por: b:0; última modificação em: Sábado 18 of Novembro, 2006 [08:57:56 UTC] por b:0;


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